Quando você me pede pra agir, eu digo que não sei o que fazer.
Quando você me pede pra falar, eu digo que não tenho o que dizer.
Quando você me pede pra ver, eu digo que não consigo enxergar.
Então você se vai.
Assim como milhares de mim, eu sou só mais uma.
Fomos construídos e empilhados, agora já não servimos mais.
Você gostou do que viu, quando eu abri os meus olhos pela primeira vez?
Um brinquedo novo.
Apagaram a minha memória e instalaram novos saberes.
Pesado demais pro meu sistema, não?
Eu vejo novos projetos nascerem semelhantes a mim, e eu sei o fim que isso terá.
Deram-me um número e um nome, e me mandaram viver.
Disseram-me que eu tinha escolha, e chamaram-na de democracia.
Ditaram-me regras, e me disseram que eu era livre.
A onde eu estou?
Eu vivo mentiras porque me esconderam a verdade.
Pediram-me pra pensar, mas esqueceram de me dizer que meu pensamento é previsível.
Ao nascer me disseram no que eu deveria acreditar, e eu acreditei.
Disseram-me como jogar, e eu joguei.
Se eu não o fizer, o que será de mim?
Talvez me desliguem, talvez apaguem a minha memória outra vez.
Não, eu não quero ser reconstruída, me deixem viver.
De uma alma a minha pele de lata, e deixe-me mover o meu corpo.
Tire o óleo das minhas veias, e deixe-me sentir o pulsar do meu coração.
Eu quero ser livre, não quero um pensamento pronto.
Não me diga o que fazer.
Livre-me das amarras, deixe-me ser humano.
Deixe-me ser humano outra vez.
Aline Westphal

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